sexta-feira, abril 06, 2007

O baile na flor

QUE BELAS as margens do rio possante,
Que ao largo espumante campeia sem par!...
Ali das bromélias nas flores doiradas
Há silfos e fadas, que fazem seu lar...
E, em lindos cardumes,
Sutis vagas lumes
P'ra o baile na flor.
E então - nas arcadas
Das pétalas doiradas,
Os grilos em festa
Começam na orquestra
Febris a tocar...
E as breves
Falenas
Vão leves,
Em bando
Girando,
Valsando,
Voando
No ar!...

in Castro Alves, A cachoeira de Paulo Afonso

quinta-feira, abril 05, 2007

O laço de fita

Não sabes, criança?'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendim-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênua cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deus! As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu...tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célebre valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas aí! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa...crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu...fico preso
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova...formosa Pepita!
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.

in, Castro Alves, Espumas flutuantes